1.º Ciclo:
Esta Língua Portuguesa
de José Jorge Letria
A língua que falas e escreves
é uma árvore de sons
que tem nos ramos as letras,
nas folhas os acentos
e nos frutos o sentido
de cada coisa que dizes.
É uma língua tão antiga
como isto de ser Português.
Teve o latim por avô,
que primeiro foi romano,
depois bárbaro,
mais tarde medieval
ou copista do Renascimento.
A língua cresceu como o país,
que se alongou até ao sul
e depois chegou às ilhas,
vencendo os tormentos do mar.
O país ganhou a forma
de uma língua de terra
capaz de usar palavras
como “lonjura” e “saudade”.
(…)
A árvore desta língua
tem nos ramos o segredo
dos mistérios mais antigos
e também os frutos doces
da ternura sussurrada
ao ouvido de quem chega
para nunca mais partir,
tamanhas são as saudades
da terra lhe ficaram.
É uma língua bela e doce
com mãos cheias de sinónimos
e grinaldas de metáforas,
capaz de encher de ouro
a arca dos poetas
até ao fim dos tempos,
que o tempo desta fala
não prescreve nem acaba
com a sede de ser eterno
sem deixar de ser moderno.
(…)
A árvore desta língua
merece o mais belo jardim
que alguém lhe possa dar,
pois já foi a casa-mãe
de Bocage e de Pessoa,
de Cesário e de Alexandre O’ Neill,
língua feita pátria
de um povo que não pode
manchar com erros a fonte
da fala com que se escreve,
da língua com que se diz.
Esta é a língua dos meninos
que brincam com as palavras
e fazem delas brinquedos
para alegrarem o recreio
das histórias
mais bonitas
que alguém pode contar.
(…)
A árvore desta língua
tem substantivos e pronomes,
adjectivos e verbos,
vocativos e conjuntivos
e outras coisas mais,
arca de um velho tesouro
que todos temos guardado
para não deixarmos morrer
a grandeza do que somos
e que só há-de acabar,
voltando à cadência da rima,
quando Portugal se calar.
(…)
Esta é a árvore de tudo
o que se diz em Português
por não precisar de ser dito
em alemão ou em inglês,
pois temos orgulho bastante
para fazermos da nossa língua,
que já foi peregrina e navegante,
a pedra mais preciosa,
seja em verso seja em prosa.
E o orgulho que temos
nesta língua portuguesa,
irá do berço para a escola
e da escola para a rua,
pondo em cada palavra,
uma pepita de ouro
e uma centelha de lua,
pois afinal esta língua
será sempre minha e tua.
2.º Ciclo:
Cada árvore é um ser para ser em nós
Cada árvore é um ser para
ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada.
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses
António Ramos Rosa
As árvores e os livros
As
árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Jorge Sousa Braga
Num Exemplar das
Geórgicas
Os
Livros. A sua cálida,
Terna,
serena pele. Amorosa
companhia.
Dispostos sempre
a
partilhar o sol
das
suas águas. Tão dóceis,
tão
calados, tão luminosos na sua
branca
e vegetal e cerrada
melancolia.
Amados
como
nenhuns outros companheiros
da
alma. Tão musicais
no
fluvial e transbordante
ardor
de cada dia.
Eugénio de Andrade
3.º Ciclo:
Gosto de
dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos
tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a
sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer
mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria
ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de
Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em
todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível
que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de
engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio
passivo de coisa movida.
Como todos
os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da
entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer
pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas,
criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas,
numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se
misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim
as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos
sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e
confuso.
Não choro
por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito
chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança,
li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei
Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo,
confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me
fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento
hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas
palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro
vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto
como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda
choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a
saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira
vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho
sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto
sentimento patriótico. Minha pátria
é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem
Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio
verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não
quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a
página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que
se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja
independentemente de quem o cuspisse.
Sim,
porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a
gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo
qual é senhora e rainha.
In Livro
do Desassossego por Bernardo Soares
|
|
|